Renato Godinho Instagram – O peso da verdade e como nos distanciamos dela.
Quando se fala de tecnologia, há um tendência para misturar o potencial que ela oferece com os efeitos objectivos que resultam da sua utilização. Talvez o exemplo mais óbvio e dramático seja a dicotomia aproximação/distanciamento que ela proporciona/provoca.
Mas há uma vítima mais profunda, mais silenciosa e indefesa, do avanço napoleónico da tecnologia – a verdade. A verdade é cada vez mais um conceito subjectivo. Factos e opiniões têm o mesmo valor, o impacto mediático sobrepõe-se ao esclarecimento objectivo e desinteressado, o algoritmo que nos alimenta com o que queremos ver e ouvir.
Realismo não é o mesmo que realidade. O realismo que a tecnologia proporciona ao cinema (por exemplo) faz com que a discrepância entre um filme de guerra e uma reportagem de guerra seja praticamente nula. O resultado é uma inevitável dessensibilização em relação à realidade. A informação com que o nosso cérebro está a ser estimulado já não tem o mesmo impacto – nem visual, nem linguístico, nem situacional. A verosimilhança – um conceito ligado à ficção teatral desde a Grécia Antiga – consiste na capacidade de uma situação aparentar ser real para provocar uma identificação entre o espectador e a história encenada. Mas a verosimilhança tem hoje praticamente o mesmo peso do que a verdade.
A inteligência artificial é o mais recente e poderoso expoente da tecnologia. E é também, provavelmente, a maior ameaça ao valor da verdade. Não vale a pena enumerar os diversos exemplos em que a desonestidade da autoria artificial substituiu a fragilidade da criação humana. Lembrar-nos-emos um dia de que essa fragilidade é um dos maiores tesouros da condição humana.
É antigo este logro sobre a verdade: “Tu não queres a verdade. Tu queres que a verdade seja a tua verdade.” Mas estamos vertiginosamente a aproximar-nos de um mundo em que não haverá fact-checking que consiga acompanhar o ritmo das inúmeras realidades criadas ao arrepio daquilo que deveria ser transversal às múltiplas naturezas relacionais que nos ligam: a verdade.
Imagem sintética, retirada do jornal “Público”. Não é uma fotografia. | Posted on 16/Feb/2024 15:00:13



