Guilherme Weber Instagram – O livro maldito do Vampiro de Curitiba. Sua primeira obra, publicada em 1945 e renegada até hoje, até há pouco. Umas das lendas diz que um dos focos de águia das suas contínuas caminhadas pela cidade era a busca de exemplares do Sonata pelos sebos locais. Para comprar e tacar fogo, fazer fumaça da sua primeira faísca. Aos 98 anos, como o maior escritor brasileiro vivo, Dalton parece ter se apaziguado com 1945. E liberou para a maravilhosa editora Arte e Letra uma reedição limitada e numerada deste segredo aqui. 150 exemplares de capa dura e ilustração de Kafka escolhida pelo próprio Trevisan. Cheguei a tempo do número 137 e de mergulhar em uma espécie de começo de tudo.
O talento já se vislumbra apoteótico aqui, aos 20 anos!!! A assinatura já ensaia métrica, mas ainda subterrânea, distante a navalha impiedosa que cortará palavras até a criação da personalíssima dicção. Não havia aqui, ainda, Curitiba, a eterna febre geográfica. Aqui pode ser qualquer cidade com ares de comarca. Senti um perfume de Ciro dos Anjos por estas páginas, algo do Amazonense Belmiro, a afetividade ao olhar para mulheres velhas, a crueldade algo distante, o desejo na superfície da pele.
Me impressionou a quantidade de adjetivações, um compêndio, bem distante da síntese rigorosa do auge do autor. “Ares líricos de menina que leva um violino embaixo do braço”, “o chope despertou em mim a alma de uma virgem de 14 anos, que dorme de mão posta sobre o coração”, “os olhos leves de Joaninha pousaram na superfície do cafajeste, leves como os pés de uma borboleta…”
Sempre de ótimos resultados esta metralhadora do narrador.
Foi uma aventura esta leitura, uma sensação de proibido e de espanto, um olhar voyeurístico sobre a construção do gênio.
Obrigado @arteeletra
#daltontrevisan | Posted on 17/Dec/2023 06:54:22
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