Hoje acordei às 4 da manhã. Sem conseguir voltar a dormir, comecei a pensar na minha mãe. Os minutos foram passando cada vez mais largos e subitamente precisei mais do que a minha, pouco generosa, memória me oferecia dela naquele momento. Fui ver as redes sociais dela e de repente parecia viva sem o estar. A dor abalroou-me e eu deixei-me ficar. Não… não me deixei ficar. Dei-lhe carvão desenfreadamente ao fazer scroll dos textos e fotografias que eu lia na diagonal quando ela cá estava, mas que agora na sua ausência leio à velocidade de um namoro. Parei até onde ela escreveu para a mãe dela que morreu no ano em que eu nasci. Escreveu exactamente aquilo que eu estava a sentir. Dizia o quanto a amava, o quanto sentia a falta do cheiro e do toque dela. Eu sinto hoje o mesmo por ela, sinto tanto a falta das mãos que sempre me limparam as lágrimas da mesma forma, uma forma só dela que está patenteada nos genes e no amor que sentia por mim. Apercebi-me resignada, ao ler as saudades dela pela mãe, que até na dor há herança. Logo a seguir estava esta foto minha e nunca me vi tão parecida com ela como hoje. Ela vive, morta, mas vive.