Projeto deslumbrante. Livro penoso. Passagens sublimes. Quando li o breve primeiro capitulo coloquei o livro imediatamente de lado. Não consegui continuar de tanta simples beleza e pela alegria da impressão de ter encontrado um novo autor favorito. Voltei a ele dias depois, foi o escolhido para minha viagem para Istambul. Com algumas passagens sublimes o livro é como ler As Confissões do Jovem Werther, de Goethe mergulhado em um melodrama turco de raiz. Mas como editor severo que sou, o mesmo que tiraria 50 páginas do Grande Sertão Veredas, aqui em cortaria no mínimo 250 das 560. Um emoção renovada veio do livro qdo visitei o museu que ele inaugura. Neste incrível projeto do autor o romance deu origem a um museu permanente em Istambul e o museu tem um catálogo sobre a exposição desta dolorosa história de amor. Um museu novela, uma expo das pequenas narrativas cotidianas. Que se torna também uma visita à cidade de Istambul pela perspetiva doméstica. Os objetos que o herdeiro rico colecionou da jovem aspirante a atriz de cinema ao longo dos anos, para aplacar o desejo e a saudade estão expostos nas vitrines do Museu da Memória. “Nós não precisamos mais de museus que tentam construir narrativas históricas da sociedade, da comunidade, da nação, do estado, da tribo, da espécie. Nós todos sabemos que o ordinário, que as histórias diárias dos indivíduos são mais ricas, mais humanas e muito mais alegres.” Quando cheguei ao final do livro, da visita e do catálogo, comemorei finalmente a liberdade de me despedir daqueles personagens que já tinham se tornado insuportáveis para mim, mas que também me marcaram de maneira indelével. Com 250 páginas a menos eu terminaria de joelhos. Com 560 minha coluna impediu a reverência. E fechando a última página senti a alegria de pensar em voltar para Jean Genet e Nelson Rodrigues.
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