Letícia Tomazella Instagram – Eu nunca vou esquecer a primeira vez que o vi. Diferentemente dos meus amigos nascidos e criados na capital, fui nascida e criada numa pequena cidade beem interiorana, um tanto longe da pauliceia. Então demorei pra conhecer certos tesouros. Mas chegou minha vez, conheci o Zé. E ele é de Araraquara, cidade que também conheço bem. Eu o vi pela primeira vez em São José do Rio Preto, apresentando sua peça autobiográfica “Vento forte para papagaio subir”. Era 2005, acho. Eu já havia ouvido falar muito dele, mas, como ocorre com Dioniso, só quem está em seus ritos entende do que se tratam potência e transcendência. A peça falava sobre isso, sua travessia, a travessia de alguém que nasceu lá e voou pra longe.
Eu ouvia que o Zé, nos primórdios, levou sua peça “Os Sertões” para Araraquara e chocou a aristocracia local. O povo da sala de jantar, sabe?! Muito comum por lá, um agropensamento de tradição, família, propriedade. Zé chacoalhou seu lugar de origem. E depois não precisou mais voltar. Seu reduto, o Teatro Oficina, se tornou nosso reduto, reduto de todos os que precisavam fugir da gente careta e encaixotada, do ar quadrado que obrigam que a gente respire. Ir pro Oficina era fugir do massacre cotidiano. Reduto de liberdade, criatividade, arte. Zé, com todos os seus paradoxos, foi livre e pressionou pra que sua plateia também o fosse. Tentamos. Seguiremos tentando.
Como é nascer assim, de mente alada, Zé? Deve ser bom e deve ser sofrido. Nascer assim, tão colorido, numa sociedade tão cinza. Que dureza. Mas que bom que você veio. Que bom que você marretou essas paredes rígidas do pensamento, do sentimento e, sobretudo, do corpo: você era e pra sempre será puro corpo. Um corpo cênico embriagado de vinho e poesia. Obrigada por tudo. Sobretudo por nos mostrar que a liberdade, mesmo que de vez em quando, é possível.
Lutaremos por aqui, enquanto você segue seu voo.
Evoé. 🍷🎭
(Foto: Amanda Perobelli) | Posted on 06/Jul/2023 20:24:20



