Miguel Araújo Instagram – Muitas vezes me perguntam sobre o meu processo criativo. Não é fácil explicar, pois não é linear. Varia, não há fórmulas nem regras. Mas respondo sempre, para tentar esclarecer e simplificar, que primeiro aparece a música e depois a letra. Esta canção que saiu hoje, “Saudade”, quis nascer dessa maneira. Como vou gravando tudo, para não me esquecer, achei por bem partilhar o processo com quem me segue aqui, pois poderá servir a quem, como eu, passa a vida a tentar fazer canções. Não há regras, elas é que sabem quando precisam de nós para nascer. Basta que lhes estejamos permanentemente disponíveis com todo o pouco que sabemos. Convém partir para a criação de uma canção com a displicência de quem não quer fazer uma canção. Senão ela foge. No caso desta, sentei-me ao piano para tentar evocar de memória uma música que adoro e já não ouvia há anos. “Bruised”, do genial Ben Folds. Derivado à memória falha, a música começou a ir para onde ela queria, por caminhos harmónicos e melódicos que, à falta de melhor descrição, não me pareciam propriamente “meus”, não me soava a nada que eu fosse escolher fazer. Para mim, isso é um bom sinal. Como sempre faço, pois prefiro cantarolar palavras aleatórias do que nananás ou lalalás, comecei a cantar palavras nonsense num inglês inexistente, que é da maneira que não me comprometo com significados, prosódia, semântica ou léxico, não é altura para isso, senão a melodia encrava. E saiu-me quase tudo duma assentada, proto-verso e proto-refrão. Logo a seguir, um proto-middle-eight, ou “parte C”, como lhe chamamos aqui. Gravei tudo, porque me parecia um todo dotado de uma certa solidez, soava a algo que queria existir. Deixei marinar dois dias, a ver se ainda me lembrava. Quando a memória varre, é porque não era para ser. Mas lembrava-me. E lembrei-me de uma tentativa de canção minha de há mais de vinte anos, entretanto descartada, que acabava com “Se eu não mato esta saudade, é ela que me mata a mim”. Não sei porque é que me fui lembrar disso, mas dava para cantar por cima do tal refrão. Convém cantar muitas vezes, para passar a rebarbadeira da repetição, foi assim que caiu o “esta”, que nitidamente (…) (continua nos comentários) | Posted on 08/Mar/2024 23:16:55
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